Processo de desertificação atinge 62 municípios e 5 novas áreas no RN, aponta estudo

  • 17/06/2026
(Foto: Reprodução)
Área em processo de desertificação em Cruzeta, no interior do Rio Grande do Norte Divulgação Um estudo inédito de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou cinco novas Áreas em Processos de Desertificação (APD) no Rio Grande do Norte, o que faz o fenômeno atingir pelo menos 62 municípios do estado. Segundo o levantamento, isso representa cerca de 15% do território potiguar - 8.359 km². Historicamente, o Rio Grande do Norte sempre considerou a existência de apenas uma área em processo de desertificação: o chamado Núcleo do Seridó - ou Seridó Oriental - com seis municípios. Essa APD tem território de 696 km² . 📳 Clique aqui para seguir o canal do g1 RN no WhatsApp Nesta quarta-feira (17) é celebrado o Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação. Os dados se referem a territórios delimitados pelo estudo: as bacias hidrográficas do Apodi-Mossoró e Piranhas-Açú, as duas maiores áreas hidrográficas do estado. 🔎 Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a desertificação é definida como um processo de degradação ambiental causado pelo manejo inadequado dos recursos naturais nos espaços áridos, semiáridos e subúmidos secos, que compromete os sistemas produtivos das áreas. Agora no g1 As cinco novas áreas apontadas na pesquisa são: APD Pau dos Ferros: 1.061 km²; APD Rodolfo Fernandes: 680 km²; APD Caraúbas: 1.500 km²; APD Sertão Central: 2.580 km²; APD Seridó Ocidental: 1.842 km²; Os dados são resultado de uma pesquisa e monitoramento de quase 10 anos dos geógrafos Anny Catarina Nobre de Souza e Sérgio Domiciano Gomes de Souza. No estudo, eles investigam a ocorrência e a distribuição espacial da desertificação no RN. "Das seis APDs identificadas, apenas uma já era amplamente reconhecida pela literatura científica e por órgãos governamentais: a APD Seridó Oriental (Núcleo), correspondente ao tradicional Núcleo de Desertificação do Seridó", explicou Anny Catarina de Souza. A pesquisa mapeia os níveis de suscetibilidade à desertificação, onde o fenômeno pode ocorrer, e também identifica e delimita as Áreas em Processo de Desertificação. Segundo os pesquisadores, as APDs são as áreas onde o fenômeno já está efetivamente instalado e produzindo impactos ambientais significativos. "A principal contribuição do estudo é demonstrar, com base em evidências científicas - laboratoriais e de campo - que a desertificação no Rio Grande do Norte é mais ampla do que se imaginava, ultrapassando os limites do tradicional Núcleo do Seridó e alcançando novas áreas do Oeste e da região central do estado", explicou Anny Catarina. Além da identificação das novas cinco áreas, o estudo atualiza ainda o Núcleo Seridó, única APD considerada anteriormente e considerada a área mais emblemática da desertificação no estado até então. "Historicamente, o Núcleo Seridó é delimitado com base nos limites político-administrativos de seis municípios. Com a realização deste estudo, foi possível atualizar e refinar essa delimitação, identificando com maior precisão onde o processo ocorre, com base em critérios ambientais e não político-administrativos", explicou o pesquisador Sérgio Domiciano de Souza. Processo de Desertificação em Olho D'Água do Borges (RN), Rio Grande do Norte Cedida O que causou a desertificação no RN Segundo a pesquisadora Anny Catarina Souza, a partir dos estudos de mapeamento é possível afirmar que o processo de desertificação no Rio Grande do Norte acontece pela combinação de fatores ambientais. "A semiaridez climática, as atividades extrativistas - desmatamento, pecuária, agricultura e mineração - sem manejo adequado e sob ambientes com restrição de recursos naturais, associados a solos rasos e pedregosos afetados por erosão, escassez hídrica e recorrência de secas", explicou. Processo de Desertificação em Pau dos Ferros (RN) Rio Grande do Norte Cedida Os pesquisadores explicaram que o processo de desertificação - conforme a definição oficial adotada pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) - só ocorre nas chamadas "terras secas", ou seja, naquelas que possuem climas áridos, semiáridos e subúmidos secos com índice de aridez variando de 0.05 a 0.65. Segundo os pesquisadores, a desertificação, no geral, resulta da combinação entre fatores naturais e humanos. "Ainda que seja um fenômeno da natureza pela sua condição climática, a interferência humana de forma desordenada e degradante sobre os recursos naturais é um acelerador desse processo, e em alguns territórios a causa mais visível da degradação da terra", explicou a pesquisadora Anny Catarina de Souza. O estudo aponta um monitoramento do processo de desertificação, através de dados por satélite, que indicam sinais de degradação ambiental persistentes há mais de 40 anos no RN - desde 1984 pelo menos. O pesquisador Sérgio Domiciano de Souza explicou que a desertificação é um processo gradual, cumulativo e dinâmico, que não surge de forma repentina na paisagem, "pois é desencadeada por atividades humanas que degradam a terra, sobretudo extrativistas que suprimem a vegetação". Segundo o pesquisador, é possível afirmar que o processo remonta "ao próprio processo de ocupação territorial dessas localidades, desde os séculos passados". Processo não é irreversível, mas exige atenção Os especialistas explicam que parte das terras em processo de desertificação pode ser recuperada, mas isso depende também do avanço do fenômeno e das intervenções feitas. Nas áreas do Rio Grande do Norte, eles indicam que "não se pode afirmar que são irreversíveis, pois exigem estudos de outra complexidade". Apesar disso, a pesquisadora Anny Catarina Souza explica que a gravidade da desertificação nessas áreas "se dá exatamente pela configuração ambiental frágil em que impera especialmente restrições de solo e escassez hídrica com recorrência de secas que faz com que a própria natureza sozinha não tenha a capacidade de regenerar a biomassa, sobretudo quando submetida a constantes intervenções humanas". "A exemplo, o monitoramento de 40 anos e visitas em campo demonstram esse fato, inclusive com registros de vegetação morta mesmo em períodos de chuva", completou. Processo de desertificação em Fernando Pedroza (RN) Cedida A geógrafa explica que, a depender do grau do processo, áreas podem ser recuperadas ou estabilizadas por meio da intervenção humana com práticas adequadas de manejo, restauração ambiental e tecnologias de convivência com o semiárido. Entretanto, quanto mais avançado o processo, maior o custo e a dificuldade da recuperação, afirma. "Logo, cabe afirmar que a irreversibilidade da desertificação está muito mais na capacidade sozinha da natureza de se regenerar, isto é, a resiliência natural dos solos, da vegetação, das condições climáticas dado o agravamento da degradação de voltar ao seu equilíbrio natural ou estado mais próximo", falou. O que pode ser feito para mitigar o problema Para os pesquidores, o primeiro passo de uma política pública para enfrentar a desertificação é reconhecer que ele é um fenômeno espacial. "Disso resulta o que o Estado precisa saber: onde ocorre? Quais os níveis? O que causa? A quem afeta? Daí as ações deverão ser direcionadas a essas frentes", falou o geógrafo Sérgio Domiciano. Os pesquisadores apontam que o enfrentamento da desertificação exige ações integradas de curto, médio e longo prazo. Entre as principais medidas, ele cita: recuperação de áreas degradadas; recaatingamento com recomposição vegetal; manejo sustentável dos solos; monitoramento contínuo das áreas vulneráveis; controle do desmatamento; assistência técnica aos produtores rurais; fortalecimento da agricultura e pecuária em bases sustentáveis; difusão e diversificação das tecnologias de convivência com o semiárido e de adaptação à emergência climática. Pesquisadores Anny Catarina e Sérgio Domiciano Cedida Estudo localizou com maior precisão áreas em desertificação Os resultados da pesquisa são frutos de uma investigação contínua dos pesquisadores, que estão em fase de conclusão do Doutorado em Geografia pela UFRN. A pesquisa apontou os níveis de suscetibilidade à desertificação e as Áreas em Processo de Desertificação, que foram determinados da seguinte forma pelos pesquisadores: Níveis de sucetibilidade e APDs Segundo o pesquisador Sérgio Domiciano, o estudo permite "localizar com maior precisão as áreas mais críticas em desertificação do estado de forma atualizada", com: informações técnicas e científicas fundamentais para o planejamento ambiental; gestão sustentável dos recursos naturais; e a recuperação dessas áreas, que cumprem a função de subsídios para efetivação da Lei Estadual de Combate à Desertificação (Lei Estadual nº 10.154/2017) com a criação do cadastro estadual das áreas em Desertificação. "O mapeamento dos níveis de suscetibilidade é inédito pois não existe nenhum outro dessa natureza a nível estadual, ainda mais porque nele consideramos critérios ambientais fidedignos a essência do problema para que seja possível saber onde de fato o problema pode e onde não pode ocorrer, em função do nível de suscetibilidade que varia conforme a diversidade de condições ambientais do território do estado", explicou Sérgio Domiciano. Vídeos mais assistidos do g1 RN

FONTE: https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2026/06/17/processo-desertificacao-rn-estudo.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Anunciantes